Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
O Brasil segue firme em seu papel de laboratório político do absurdo.
Depois de uma semana de manchetes que fariam rir até Kafka, o país mostra que o surrealismo não é uma escola literária — é um método de governo.
Comecemos pela reforma tributária: Brasília decidiu que o novo modelo de impostos será “mais justo”.
Sempre é.
Toda reforma nasce com esse mantra — até o contribuinte perceber que “justo”, no léxico político, significa “igual para todos, menos para mim”.
Aumentaram a faixa de isenção do Imposto de Renda e anunciaram como se tivessem libertado o proletariado.
A classe média aplaudiu — e no dia seguinte, o mercado subiu o preço da gasolina.
Foi um empate técnico entre a esperança e o posto de combustível.
Enquanto isso, o Congresso debate a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.
O argumento é que o país precisa de “paz”.
Paz para quem, exatamente?
A mesma paz que o ladrão sente depois de devolver metade do roubo e sair pela porta da frente?
O Brasil é o único lugar do mundo onde democracia é sinônimo de amnésia.
Perdoar virou política pública — e memória, item de luxo.
Em outro canto do tabuleiro, Lula tenta reposicionar o Brasil no xadrez internacional.
Depois de encontros e promessas, voltou dos Estados Unidos dizendo que o país “voltou a ser respeitado”.
Pode até ser.
Mas, por aqui, seguimos desrespeitando o básico: a fila do SUS, o salário do professor e o preço do arroz.
O Brasil quer ser potência global, mas tropeça no próprio chinelo.
Bolsonaro, condenado a décadas de inelegibilidade, ainda tenta se reinventar como mártir digital.
Seus fiéis continuam firmes, entre o delírio e o zap.
O ex-presidente parece acreditar que o exílio político é uma espécie de retiro espiritual — com direito a lives e merchandising.
Enquanto isso, o Centrão segue flutuando no ar, como sempre: sem cheiro, sem cor e, principalmente, sem fidelidade.
É o único bloco político do planeta capaz de mudar de ideologia antes do almoço.
E lá fora, o mundo ri.
O Brasil, esse eterno adolescente institucional, vive de crises hormonais.
Oscila entre o moralismo e a bagunça, entre o perdão e o esquecimento, entre o herói e o corrupto.
Somos uma república emocional, onde cada escândalo dura menos que um stories.
A verdade é que o Brasil não é de direita nem de esquerda — é de ocasião.
Tudo aqui é negociável, menos o ridículo.
Esse é patrimônio nacional, tombado por unanimidade.

Comentários
Postar um comentário